A periodontite é uma das doenças inflamatórias mais comuns, afetando, aproximadamente, metade da população adulta em todo o mundo. A relação da periodontite com doenças sistémicas, tais como doenças cardíacas ou diabetes, é já bem conhecida.

Algo que ainda não é discutido é o facto da inflamação generalizada também ser um fator de risco para condições de saúde mental, como depressão e ansiedade; e, inversamente, que a probabilidade e a gravidade da doença gengival podem ser afetadas pelo estado de saúde mental. 

Periodontite

A periodontite é uma doença inflamatória crónica, multifatorial. A periodontite está associada a marcadores elevados de inflamação em todo o corpo, como as citoquinas pró-inflamatórias TNF-alfa, IL-6 e IL-1beta, PCR (uma medida de inflamação) e gama-glutamiltransferase (um marcador de stress oxidativo). 

Os possíveis mecanismos pelos quais a periodontite pode afetar órgãos distantes incluem a migração direta e colonização de espécies bacterianas para áreas distantes, resultando numa resposta imune inflamatória local na nova região; e a transmissão de agentes inflamatórios a partir da cavidade oral. A presença de citoquinas pró-inflamatórias crónicas sistémicas elevadas e a disseminação sistémica de produtos bacterianos periodontais sustentam a teoria da ligação já conhecida entre periodontite e doença cardíaca e diabetes. 

Doenças relacionadas com a periodontite

A evidência científica sugere que a inflamação relacionada com a doença periodontal também pode estar ligada à artrite reumatoide, alguns tipos de cancro, parto prematuro e demência. Embora a ligação entre doença mental e a ausência de saúde oral tenha sido estabelecida já há muito tempo, geralmente é interpretada como resultado da falta de autocuidado e de um mau estilo de vida frequentemente observados em pessoas com problemas de saúde mental. 

Investigações mais recentes demonstram que a inflamação sistémica crónica afeta diretamente o sistema neurológico e o comportamento humano de maneiras muito específicas, o que sugere que o vínculo com a saúde mental e dentária provavelmente será fisiológico e psicossocial. O aumento de citoquinas periféricas afeta diretamente o sistema cerebral (como o hipotálamo, hipocampo e córtex pré-frontal) que está relacionado com a depressão, e reduz os níveis de serotonina, dopamina e norepinefrina no cérebro, alterações frequentemente correlacionadas com doenças mentais. 

Além disso, a inflamação reduz a produção do fator neurotrófico derivado do cérebro, que é crucial para a criação de novos neurónios e conexões sinápticas. Estudos experimentais em camundongos demonstraram que a administração de agentes inflamatórios leva diretamente a um “comportamento depressivo”, como distanciamento social, redução da motivação e atividade motora e aumento da ansiedade. 

Este tipo de comportamento também foi observado em casos de altos níveis de marcadores inflamatórios em seres humanos. 

É importante notar que nem todas as pessoas com níveis clínicos de depressão apresentam inflamação e, inversamente, nem todas as pessoas com inflamação estão deprimidas. Assim, a inflamação sistémica deve ser vista como um gatilho para a depressão, entre outros fatores. 

Implicações

A ideia de que os processos imunológicos podem desempenhar um papel fundamental no desenvolvimento de condições psiquiátricas e influir no seu tratamento, é uma área de interesse na atualidade. A inflamação generalizada pode ser um fator de risco para depressão e mudanças de comportamento mediadas pelo stress. No entanto, embora a periodontite cause inflamação sistémica e vários estudos clínicos impliquem uma relação entre periodontite e depressão, a ideia de que a periodontite é um fator de risco para a depressão não está totalmente demonstrada e são necessários mais estudos. Atualmente, também se estuda a hipótese de que infeções na cavidade oral, como quistos dentários, também podem ser um fator de risco da depressão e demência. 

Implicações clínicas: ligação entre periodontite e depressão

A importância da saúde oral deveria ser mais controlada em pacientes com problemas de saúde mental. O tratamento eficaz da doença periodontal é capaz de reduzir a carga inflamatória sistémica, que pode apoiar a recuperação da doença mental. O tratamento eficaz da periodontite em pessoas sob stress (por exemplo, um luto recente) pode reduzir a suscetibilidade à doença mental e melhorar o bem-estar psicológico. 

O stress psicológico é um dos principais fatores de risco para exacerbar processos inflamatórios. Através de uma cascata complexa, a libertação de epinefrina e norepinefrina leva à regulação positiva de citoquinas pró-inflamatórias. O stress tem sido diretamente relacionado com a progressão da periodontite. Condições crónicas, como depressão e ansiedade, também estão associadas a alterações fisiológicas que podem acelerar diretamente a progressão da doença periodontal. Um dos efeitos colaterais mais comuns dos psicofármacos é a xerostomia (boca seca). A medicação pode alterar tanto o volume quanto a composição da saliva, reduzindo a sua função protetora e permitindo que os níveis de bactérias orais aumentem. 

Embora não seja a área dos médicos dentistas prestarem cuidados de saúde mental, é importante saber identificar este tipo de pacientes e saber reencaminhar para profissionais de saúde que os possam acompanhar.

*Dra. Ana Paz, Ciência, Investigação e Actividade Clínica na White Clinic

*Originalmente publicado em O Jornal Dentistry.

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