Para esta crónica, temos como convidada a Dra. Daniela Fontes, médica anestesista, que mais tarde se dedicou à medicina funcional integrativa, inicialmente por motivos pessoais, mas que acabaram por encaminhar a sua carreira profissional. Aqui, partilha connosco a sua experiência pessoal, na qual a medicina dentária tem um papel preponderante no diagnóstico e tratamento da saúde geral.

Dra. Daniela Fontes, na primeira pessoa

O que vou partilhar são factos e evidências.

Em 2012, deparei-me com um dos maiores desafios da minha vida até ao momento.

Habituada a anestesiar doentes com cancro da mama, via diariamente decorrerem cirurgias mais conservadoras e diagnósticos cada vez mais precoces… Nesse ano, estando a amamentar o meu segundo filho, apercebi-me que, de um dia para o outro, tinha crescido um nódulo duro de grandes dimensões. Passei pelo mesmo processo que as minhas pacientes, com angústia, e fiz vários exames de confirmação para realmente acreditar que o que se passava comigo era mesmo real.

O meu mundo colapsou por duas razões. A primeira razão era o tamanho: o nódulo tinha grandes dimensões e, para além do tamanho, já tinha metástases (o que apontava para um estado de doença avançada). A segunda razão, e a mais importante: tinha dois filhos pequenos e não queria que sofressem.

Os primeiros quinze dias foram duros. Os meus dias eram passados deitada no sofá ou na cama, só saía para exames e sessões de quimioterapia. A minha mente e corpo estavam em choque. Não conseguia raciocinar, nem sequer sentir.

Após esses 15 dias tive de enfrentar com frieza e coragem, tal como num campo de batalha –esta batalha que não era contra ninguém, mas sim por mim.

Queria perceber o que tinha acontecido no meu corpo para desenvolver esta doença e, sobretudo, o que podia otimizar no meu corpo para o ajudar a vencer. Escolhi a melhor medicina convencional praticada no mundo, desde Oncologia, Genética, Cirurgia Geral, Radioterapia. Tive necessidade de saber números, estatísticas, possibilidades e probabilidades. Percebi, mesmo antes de ter o meu estudo genético, que algum fator externo deveria estar a influenciar o aparecimento desta doença.

O que me estava a escapar?

Decidi então investigar toda a evidência existente além da medicina convencional para conseguir encontrar o missing link.

O meu primeiro livro na área de medicina integrativa foi “Anti Cancro” de David Servan-Schreiber1. Curiosamente, não havia uma única referência à medicina dentária…

Nos livros de medicina integrativa que li dão muita importância à suplementação, sobretudo à Vitamina D2. Tendo em conta que uma nutrição não equilibrada, com deficit de vitaminas e minerais, poderia ter um impacto no desenvolvimento da minha doença, tive uma consulta com a Dra. Cristina Sales que iniciou o meu caminho na medicina funcional integrativa. Na primeira consulta, após uma avaliação detalhada, fui logo informada que para ter sucesso nos tratamentos que iria seguir, teria que tirar as oito amalgamas que tinha na altura. Nunca ninguém me tinha sequer falado da toxicidade do mercúrio. Foi então que percebi que essa toxicidade já tinha migrado para todos os meus órgãos, nomeadamente fígado e sistema nervoso central.

Em 2014, comecei o processo. Foram-me retiradas todas as amálgamas sem qualquer proteção, pois disseram-me que não havia ninguém em Portugal que fizesse o protocolo SMART (Safe Mercury Amalgam Removal). Após a remoção das amálgamas sem proteção, tive agravamento clínico de vários sintomas e patologias entre 2015-2017. Mal o médico dentista que me retirou as amálgamas sabia que ficou ainda mais intoxicado do que eu! A International Academy of Oral Medicine and Toxicology (IAOMT) desenvolveu um protocolo muito exigente para a remoção das amálgamas em segurança. A White Clinic é uma clínica dentária certificada que contém o material e o conhecimento adequado para realizar o protocolo SMART.

Além deste percurso pessoal, há o percurso com os meus doentes. Como Anestesista, a nossa formação tem o tratamento da Dor Aguda e Crónica como papel central. Daí o meu envolvimento com a Dor Crónica e a Acupuntura Médica. Na Unidade Dor Crónica e na Acupuntura Médica já me deparei com a importância da medicina dentária com toda a sua amplitude de ausência de infeção/inflamação, boa função temporomandibular, e de que forma o ramo do trigémeo poderia influenciar em grandes nevralgias como a trigémeo, que são sempre os grandes desafios de tratamento.

Devido à minha condição clínica pessoal, recorri à medicina dentária biológica integrativa em 2018, com o objetivo de ter tratamentos o mais biocompatíveis possível. Foi então que me deparei com uma infeção óssea na minha mandíbula, a qual os médicos dentistas chamam NICO (Neuralgia Inducing Cavitational Osteonecrosis) devido a um dente extraído por mau posicionamento aos oito anos. O diagnóstico foi feito através de um RX tridimensional ou CBCT. A imagem radiológica demonstrava de forma evidente a presença de infeção. Quanto mais estudava mais percebia o impacto que tem na saúde geral o facto de ter infeções/inflamações silenciosas na nossa cavidade oral e o impacto de ter implantes de titânio pode gerar resposta galvânica ou de bateria/pilha como outros metais.

Confesso que no início era um pouco cética, até que a minha experiência clínica e pessoal me demonstraram que o facto de haver infeções nos maxilares, devido a extrações dentárias mal realizadas e a dentes com tratamento endodôntico insuficiente, poderia comprometer a minha saúde geral.

Saúde oral = saúde sistémica

Existiram dois acontecimentos que revolucionaram a minha forma de pensar sobre o meu percurso clínico e pessoal:

  1. Os maus tratamentos dentários e infeções na cavidade oral que comprometeram o meu sistema imunitário e influenciaram o aparecimento de doenças crónicas.
  2. O caso de uma paciente minha com 35 anos, em que lhe foi diagnosticada uma sacroileíte unilateral, sem marcadores de inflamação sistémica, sem história de traumatologia, sem síndrome mio fascial na cadeia lombar, abdominal ou desse membro inferior. A paciente respondia de forma terapêutica à acupuntura semanal, mas não conseguia espaçar os tratamentos e dependia muito deles. Colocou-me o desafio de perceber o porquê.

Através da minha experiência pessoal, atrevi-me a pedir-lhe que me enviasse a última ortopantomografia. Apresentava uma lesão NICO num dente funcionalmente ligado à sacroilíaca. Expliquei-lhe a ligação que tinha estabelecido e enviei a um colega de referência em medicina biológica integrativa com carta de referenciação a explicar todo o quadro. Recebi mais tarde uma carta que guardo até hoje. O agradecimento da colega pela referenciação de um médico não dentista de um NICO com alto impacto num doente. O resultado, após a intervenção cirúrgica e o plano que estabelecemos no mês seguinte de fortalecimento, nomeadamente com vitamina C e D, e de desintoxicação de todo o material microbiológico que foi eliminado foi excelente, não sendo preciso submeter a doente a mais tratamentos. A chave estava em eliminar a infeção dentária.

Perceber a relação entre medicina dentária e medicina integrativa é essencial para a nossa prática clínica diária. Aprendi, sobretudo, que o conhecimento dessa ligação tem um grande impacto no diagnóstico e plano de tratamento. É importante que o clínico tenha o conhecimento das técnicas (como a ART, Autonomic Response Testing, feita em Portugal pela Dra. Ana Paz), e tecnologia como ozono, laser Er:Yag e o uso de plasma rico em fatores de crescimento e células estaminais para ter resultados de sucesso.

É essencial fazer o paciente entender que mais importante do que ter um sorriso bonito, é importante ter um sorriso e corpo saudável.

*Dra. Daniela Fontes, Médica Anestesiologista (OM 39119) Acupuntura Médica (competência OM), Medicina Funcional Integrativa
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
  1. David Servan-Schreiber. Anti Cancro. 2007.
  2. Dr Robert Kulacz, Dr Thomas Levy MD., “The Roots of Disease: Connecting Dentistry and Medicine.”

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